domingo, 9 de outubro de 2011

Circo

- E aí, elefante?

Ele me olha com seu enorme olho preto.

- Eu sei que você tá preso aí há anos. Desde filhote, acorrentado nesse maldito tronco estúpido…

Respirando forte e calmamente, ele puxa um punhado de plantas secas com sua tromba e bota na boca. A tenda é grande, mas é abafado e incômodo ali dentro.

- Você já deve ter tentado escapar muitas vezes quando mais novo… essa história é velha. Mas dizem que elefantes têm uma ótima memória.

Dou uns tapinhas na pele grossa e cinzenta daquele rosto camarada.

- Você certamente se lembra… aquele esforço frustrante, a corrente apertada no pé, rasgando sua carne enquanto você forçava mais e mais e não chegava a lugar algum…

O elefante me espia com seu olho curioso conforme mastiga sua comida.


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A Verdade por trás da Verdade

Eu só queria saber a verdade sobre o mundo. Se eu soubesse que eles queriam me fazer fumar esse monte de erva e tomar LSD, não teria vindo até aqui. Comprava com o traficante da esquina.

- Ora, senhor - me diz um hippie cabeludo e escroto. - Não tem nada a ver! Aquilo é droga! Aquilo tem... - ele arregalou os olhos avermelhados e finalizou: - energia ruim.

Energia ruim? Fora o Edison e o Westinghouse, quem usa essa expressão é babaca. Principalmente se for um hippongo new-age como esse.

- Aqui as energias são boas - continuava ele. - Você vai abrir a mente pra outras coisas! Vai enxergar o mundo como ele realmente é…

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O Povo Brasileiro

- Porra, o povo brasileiro é muito acomodado, não faz merda nenhuma!

- Você não é daqui...?

- Sou.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

AVISO: FAVOR NÃO ALIMENTAR AS PESSOAS

Agora é proibido ajudar. Não que esteja na lei, mas é algo que deve ficar subentendido na cabeça das pessoas. Não ajudar nada e ninguém, agora, é uma espécie de obrigação moral. Se você desobedecê-la, vai acabar parecendo algum tipo de idiota. É assim que a coisa funciona. É uma nova corrente de pensamento pra todo mundo que é decentemente educado e entende das coisas. Inclusive você.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Relatos de um Jogador

O mundo é um jogo, sabe? O mundo não passa de um grande tabuleiro em que as pecinhas são pessoas. Sei lá, setores assim da sociedade que a gente empurra pra lá e pra cá e joga dados e faz apostas. Apostas que envolvem muito, mas muito dinheiro. Muito mesmo.

É engraçado. Eu não sei explicar por quê, mas ao mesmo tempo eu também fico meio aflito quando penso nisso. Acho que é porque a gente é responsável por todos, simplesmente todos os problemas sociais do mundo. Sério, existem algumas questões biológicas, umas patologias sem muita salvação, mas a grandíssima maior parte das maldades da humanidade só existem por causa de um sistema que a gente manipula e sustenta.

Mas isso é só um emprego, entende? Existe um sentimento subentendido de que estamos fazendo apenas o nosso trabalho. E o nosso trabalho é, basicamente, nada. Pode acreditar. Todas aquelas pessoas gritando e fazendo telefonemas desesperados lá na bolsa de valores, na verdade, não estão fazendo nada. Chega a ser engraçado. Essa parte também me dá uma certa aflição, mas é sério: todas aquelas pessoas estão lidando com nada mais do que puro ar.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A Chuva e o Gato

Um céu cinzento e apocalíptico cobre a cidade. São sete horas. Algumas nuvens estranhamente alaranjadas, num tom quase bronze, começam a piscar em pequenos relâmpagos. Uma tempestade está por vir, mas o ar continua morno e estático. Um enorme trovão assusta as poucas pessoas que ainda andam na rua. Água começa a cair dos céus.

Sinto-me num pântano. Um novo raio surge dentre as nuvens e uma luz verde e podre ilumina a rua. Enquanto ando sobre as enormes poças que se formam, as pessoas desaparecem. O lixo desliza pelas calçadas. Sinto cheiro de esgoto. Enquanto isso, sigo indiferente.


Miau.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Anarquismo é Pouco


Eu não gosto de anarquia simplesmente pelo fato de já estarmos vivendo uma. Na verdade, é impossível deixar de viver numa anarquia. Ou isso, ou a anarquia em si é que é impossível. De qualquer forma, a moral da história é essa: em termos de anarquismo, dentro ou fora dele, estaremos eternamente no mesmo lugar. 

A voz popular definiria a anarquia como desordem ou algo assim. Pensando politicamente, seria algo como a falta de um Estado ou a constituição de um governo. Em termos semânticos, anarquia quer dizer apenas a falta de um líder. Essencialmente, a semântica vence. A anarquia é, no final das contas, a ausência de autoridade. O que resulta na falta de organização de uma hierarquia de poderes e impossibilita a formação de um Estado. O que, enfim, provoca a concepção popular de que a anarquia é sinônimo de caos. E o caos, afinal, tal como a anarquia, não muda: ou é constantemente inevitável, ou eternamente inalcançável.

terça-feira, 22 de março de 2011

A História da Humanidade


Existência. 

Sem mais nem menos, a absoluta inexistência deixou de inexistir e uma enorme explosão criou o tempo e o espaço. Altura, largura, profundidade e tempo simplesmente não existiam e aí, de repente, surgiram. Uma centena de propriedades deram as caras e elementos começaram a aparecer, lançando milhares de combinações aleatórias universo afora. Essa conclusão parece maluca e simples demais para ser verdade, mas a comunidade científica, aparentemente, tem uma série motivos lógicos pra suportar essa teoria bizarra. Então pronto: Big Bang. Sem mais nem menos, simplesmente, tudo começou.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Um Ensaio Sobre Zumbis


Por definição, zumbis consistem basicamente em cadáveres reanimados. Pessoas que, embora tenham morrido por dentro, ainda possuem um corpo operante. Mas a questão é que a coisa não é tão simples assim. Essa morte interna do zumbi não traz de volta uma carcaça humana feliz e serelepe. O zumbi, na verdade, é um corpo podre, descuidado e apático, cujo único interesse é comer a carne daqueles que ainda não são zumbis. E só pra constar, esses mortos-vivos canibais e agressivos parecem ter um curioso interesse por cérebros.

É isso aí: zumbis são terríveis cadáveres ambulantes e comedores de cérebro. A questão por trás deles não é nada mais do que a morte. O zumbi representa o puro medo da morte: olhe-os nos olhos e estará encarando a terrível imagem de um corpo sem vida. E como se a aparência do zumbi não bastasse pra relembrar a sua mortalidade, essas criaturas ainda se responsabilizam por realizar o serviço ao devorarem a sua carne. É engraçado que, na realidade, os zumbis não costumam ter pressa alguma. Eles mancam e rastejam. E enquanto te perseguem, costumam ser até bem frágeis. Embora seja difícil de matar o que já está morto, um bom zumbi morre pela segunda vez assim que leva uma boa pancada na cabeça. De preferência, é claro, um tiro explosivo e sangrento de espingarda.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Tudo certo, tudo certo...


Ele passa o dia andando descalço nas ruas e calçadas ásperas da cidade. Seu pé endurece, formando uma espécie de crosta preta e resistente. Mas isso não basta. Ainda assim, feridas avermelhadas começam a surgir. Buracos ensaguentados se formam e o pé cresce num inchaço doente. Uma infecção começa a se alastrar e as feridas aparecem perna acima. Aquilo não é apenas sangue. Outros líquidos esbranquiçados começam a escorrer das pequenas feridas que, com o tempo, se abrem e viram enormes rombos molhados e podres. A perna inteira é uma doença. Uma aberração. Uma estrutura orgânica preta, disforme, embolotada e gosmenta. Ele amarra panos velhos e sujos em volta das feridas, mas nada adianta. Ele para de passar dias inteiros andando. Ele resolve se sentar.


sexta-feira, 30 de julho de 2010

Ricardo e o Suco Y

Ricardo não era uma pessoa. Era uma estatística. Assim como todos nós, Ricardo estava ciente disso. Mas apesar de se reconhecer como apenas um número, nada mudava nos detalhes de sua vida. Mantinha seus pequenos hábitos e peculiaridades e pouco se importava se estava incluído em um grupo de 1 ou 90% da população. Ele simplesmente vivia da forma que lhe convinha.

Ricardo era tranquilo, tinha os pais separados e morava com a sua mãe. Há um certo tempo, havia começado a namorar uma garota que conheceu na faculdade. Sem saber exatamente onde queria chegar com isso, Ricardo estudava geografia. Mal entendia o que um "geólogo" poderia fazer da vida além de dar aulas sobre o assunto. Ainda assim, mesmo com as aulas sendo em intervalos inconvenientes, Ricardo se sentia perfeitamente decidido com o seu curso. Em geral, passava sua lacuna semanal de 45 minutos ouvindo música ou conversando com os colegas. Às vezes jogava alguma coisa no seu portátil, às vezes lia algum livro divertido. Todas as vezes, no entanto, Ricardo tomava suco de manga.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Se Divertindo Um Pouco


- Larga a chave do carro! Larga a chave, porra!

As pessoas na rua olham, assustadas, e aceleram o passo. A mulher, já lá com seus trinta e poucos, começa a andar pra trás.

- Larga isso ou eu estouro a sua cabeça!

- Calma, espera, eu--

- Larga a chave no chão, caralho!

- Pelo amor de Deus, por favor, você não enten--

BANG!